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A LIÇÃO QUE O VÍRUS NOS ESTÁ A DAR, A NÓS, NO ORGULHOSO OCIDENTE
2020-03-23
SAPO 24
23 mar 2020 18:20
A opinião de Francisco Sena Santos
 
O vírus está a fazer o Ocidente cair do pedestal onde se exibia orgulhoso. Primeiro, foi a velha Europa – que nem foi capaz de montar o socorro inicial a um dos seus, a Itália. Depois, os Estados Unidos. A ideia de supremacia ocidental cai perante a fragilidade diante da pandemia de um vírus que sociedades asiáticas, algumas, como a China, com recurso à tradição autoritária, dominaram com relativa eficácia.
 
A Europa deixou de conseguir há várias décadas converter os valores culturais de liberdade e fraternidade em influência mundial. Mas os EUA, essa América que Trump proclama grande, também está apanhada pela falta do básico para enfrentar uma pandemia.
 
O Ocidente exibe sofisticação, designadamente com hospitais privados dotados de alta tecnologia. Mas, do mesmo modo que este Ocidente rico descuida o combate à malária e outras epidemias que avançam pelos continentes pobres, também não se preparou para enfrentar uma pandemia. As cabeças que decidem o que é prioridade no sistema de países ricos não previram que males como os que galopam por África também poderiam avançar pela Europa e pela América do Norte. E essa falta de visão tem-se revelado pela penúria no que deveria ser a reserva estratégica de máscaras e outros equipamentos de proteção e escassez de testes de despistagem porque a indústria farmacêutica tem sido orientada para outros alvos.
 
O diretor-geral da OMS bem foi avisando, oportunamente. Mas a voz de organizações multilaterais tem pesado pouco ou nada sobre o governo das potências.
 
Nos EUA, Trump até começou por negar a gravidade do vírus. Quando percebeu que a pandemia é de tal modo uma catástrofe global que pode pôr em causa a reeleição, em novembro, a que aspira, despertou e tratou de entrar em show de combate ao covid-19. Optou, como costuma fazer, pela via nacionalista. Começou por fechar fronteiras com a União Europeia, mas com via livre para o Reino Unido do parceiro Boris Johnson. Não tardou a ter de fechar portas aos britânicos ao constatar que o vírus estava a propagar-se pelas terras de Sua Majestade.
 
Mas, sempre, tudo com muito escassa cooperação e ausência de liderança global contra o inimigo comum.

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Fotografia:  EPA/Antonio Vece