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TRABALHAR QUATRO DIAS POR SEMANA? JÁ SE PRATICA EM PORTUGAL, MAS SÓ PARA ALGUNS
2020-03-01
DINHEIRO VIVO
João Tomé
01.03.2020 / 10:46

Há quem já só trabalhe quatro dias por semana, mas a generalização desta prática “é difícil na atual cultura em Portugal”

Tem sido uma das tendências a nível laboral mais faladas nos últimos tempos, mas ainda não há empresas de grande dimensão a aplicar a semana de quatro dias de trabalho à generalidade dos colaboradores.

No ano passado, a Microsoft do Japão testou durante um mês o horário laboral de quatro dias semanais. Registou um aumento de produtividade de 40%, uma redução em 23% na conta da eletricidade e a indicação que 90% dos colaboradores sentiu um impacto positivo com a medida, que até ajuda a tirar carros das ruas e a melhorar o trânsito. No entanto, a empresa ainda não generalizou o teste.

Além de outras experiências feitas em empresas, há governantes adeptos da ideia, como é o caso da primeira-ministra finlandesa – no entanto, não o incluiu no seu programa de governo.

Em Portugal,  há várias empresas a aumentar as soluções de flexibilidade laboral e a permitir aos funcionários um regime apelidado de part-time (permanente ou por um período de tempo), que permite trabalhar quatro dias por semana (ou até menos). Há colaboradores a beneficiar disso mesmo em empresas como Xerox Portugal, Worten ou a Blip e a JLL em Portugal dá a tarde de sexta-feira a todos os colaboradores.

Catarina Carvalho, professora em Direito laboral da Universidade Católica do Porto, admite que a legislação nacional encara estas hipóteses como exceção e não como regra. No entanto, a lei já permite a semana de quatro dias de trabalho mesmo que “não seja aconselhado a nível de saúde trabalhar-se de forma frequente até 12 horas por dia”. O regime chamado de horário concentrado, por exemplo, permitiu à pequena startup de recrutamento Humaniaks colocar os seus quatro funcionários a trabalhar até 12 horas quatro dias por semana para poder ter o quinto dia de folga.

Apesar destes exemplos, generalizar a ideia a empresas maiores é algo visto como difícil. Maria Alexandra Pires, da Xerox Portugal, admite que podia haver vantagens na produtividade, mas que seria necessário “mudar muita coisa em Portugal, inclusive a nível cultural”.

Sara Sousa, da empresa de software Blip (sediada no Porto), concorda e adianta que há dificuldades legais no país que não ajudam. A SAS Portugal admite que ainda não considerou a hipótese, mas se Portugal quisesse estabelecer a redução da semana laboral estariam adaptados para “pô-la em prática de forma imediata”.

A professora Catarina Carvalho admite que em Portugal a legislação laboral portuguesa (algo que até é um requisito europeu) obriga ao registo dos horário do trabalho, o que nem sempre facilita a flexibilidade que só é mais considerado no país por questões de parentalidade (para pais com crianças com menos de 12 anos). Nestes casos a legislação até permite passar os horários para três dias de trabalho, sempre com o máximo possível de 12 horas de trabalho diárias.

No entanto, “se o país quisesse favorecer de forma generalizada a semana de 4 dias de trabalho – sendo que o ideal seria não ultrapassar as 8 ou 9 horas por dia de trabalho -, teria de mudar a legislação para mostrar às empresas que essa era a nova prioridade”. Catarina Carvalho diz mesmo que “não se vê vontade em seguir esse caminho nos representantes na concertação social, especialmente por parte das empresas”.

Além destes regimes há outras empresas com situações peculiares relacionadas com o tempo de trabalho ou a localização em que ele é feito. A BinaryEdge, que tem soluções de cibersegurança e foi vendida por dezenas de milhões de euros recentemente a uma tecnológica dos EUA, por exemplo, é feita por portugueses a trabalhar de suas casas em full time desde Zurique, na Suíça, Londres, no Reino Unido e Faro e Lisboa, em Portugal. Existem várias outras startups nesta mesma situação e, como vimos, o trabalho remoto mesmo de países diferentes começa a ser uma solução cada vez mais frequente especialmente nas empresas tecnológicas.

Situação semelhante aconteceu com Ricardo Macieira. O atual responsável da Revolut Portugal, montou e geriu o negócio da Airbnb em Portugal durante anos totalmente a partir de sua casa, com reuniões mensais com os escritórios da empresa em Barcelona. “Gostava de trabalhar de casa, tinha várias vantagens, especialmente poupar tempo nas viagens”, admitia-nos numa entrevista no final do ano passado, “até porque nesta era digital podemos trabalhar de qualquer lado, desde que tenhamos internet e um computador”.

O diretor de engenharia da Web Summit, João Soares, é português e gere a sua equipa a partir de sua casa, por exemplo. “O importante para nós é a qualidade do trabalho feito, não é nem o horário nem o local onde se trabalha”, dizia-nos no verão Paddy Cosgrave.
 
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Funcionários da BLIP, no Porto
 
Fotografia: Rui Oliveira / Global Imagens