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PODE O TRABALHO TRAZER FELICIDADE?
2012-06-07
JORNAL DE NEGÓCIOS

07 Junho 2012 | 23:30

Miguel Pina e Cunha



A felicidade tornou-se um tema central no debate sociológico e aproxima-se do centro das preocupações do discurso político. Provas recentes desta inclinação são publicações como o "World Happiness Report", coordenado por John Helliwell, Richard Layard e Jeffrey Sachs, e o livro de Carlos Zorrinho, "Gestão da Felicidade" (Bnomics).
 

Aproveitando a preocupação, fica esta nota dedicada à análise de uma dezena de ideias sobre como melhorar os locais de trabalho para desenvolver organizações mais felizes e mais competitivas. Estas são alavancas importantes para a sociedade portuguesa, precisada de ambas.
 

Cynthia Fisher estudou o tema e deixou uma radiografia da empresa feliz. O que caracteriza estas organizações? Eis os seus traços salientes:
 

  • 1. Apresentam culturas apoiantes e baseadas no respeito;
     
  • 2. Proporcionam lideranças competentes a todos os níveis;
     
  • 3. Proporcionam aos seus membros um tratamento justo, segurança de trabalho e reconhecimento;
     
  • 4. Desenham o trabalho de forma a que este seja interessante e motivador;
     
  • 5. Facilitam a aquisição e o desenvolvimento de competências;
     
  • 6. Selecionam as pessoas de acordo com a sua adequação ao trabalho e à organização;
     
  • 7. Trabalham essa adequação através de práticas de indução e socialização;
     
  • 8. Reduzem os pequenos incómodos diários e procuram aumentar os fatores de satisfação;
     
  • 9. Persuadem os seus membros de que é aceitável trabalhar num ambiente menos-que-ideal (isto é, que todas as empresas comportam imperfeições);
     
  • 10. Adotam práticas de gestão de alto desempenho.

 

A evidência empírica vem mostrando que as empresas felizes, um pouco à semelhança das famílias felizes de Tolstoi, são parecidas umas com as outras – e que as infelizes são infelizes à sua própria maneira. Outra evidência sugere que práticas de gestão orientadas para a criação de ambientes organizacionais mais ricos do ponto de vista humano e gestionário se traduzem em maior músculo competitivo. Por esta razão, parece evidente que pode ser bom ser bom. Mas o desafio encerra uma dificuldade: é mais fácil seguir pelo "caminho de baixo" da gestão de pessoas do que pelo "caminho de cima". Essa dificuldade ajuda a perceber a raridade das organizações com práticas genuinamente positivas e rigorosas. Mas para melhorar, Portugal precisa de um choque de gestão. Se for um choque de gestão positiva, melhor. Mas cautela: ser bom não é o mesmo que ser bonzinho.
 

Para aprofundar este tema:

Fisher, C.D. (2010). "Happiness at work". "International Journal of Management Reviews, 12, 384-412".




Miguel Pina e Cunha
* Professor catedrático, Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa

 

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