Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2018

CONTACTOS

STEC
NOTÍCIAS DE IMPRENSA
A CRISE DA DÍVIDA CHEGA AOS MORALISTAS. GOVERNO HOLANDÊS CAI E DÉFICE ESTÁ EM RISCO.
2012-04-23
i ONLINE

Por Ana Sá Lopes
23 Abr 2012 - 03:10

O governo de Haia vai cair hoje depois da ruptura da coligação por causa da austeridade. Fitch ameaça a Holanda, agora próxima dos países que já quis expulsar do euro.

 

Até há muito pouco tempo, o primeiro--ministro Mark Rutte, líder do Partido Liberal que governa a Holanda em coligação com a extrema-direita, despejava quilómetros de arrogância sobre os mal--comportados do euro, com Portugal e Grécia na linha de fogo. Quando o governo holandês exigia regras muito mais apertadas para os países da eurozona, não devia passar pela cabeça de Mark Rutte a hipótese de que um dia o seu governo implodiria, na sequência da falta de acordo dentro da coligação para aprovar cortes que permitam que o défice não passe o limite dos 3%.

Hoje, engolindo as suas lições de moral contra os países do Sul, Rutte vai apresentar a demissão à rainha Beatriz. Com a Holanda agora também ameaçada pela Fitch de retirada do triplo A, o governo demissionário fica sem nenhum instrumento político para fazer o país chegar ao défice dos 3% e impôr cortes violentos na saúde e nos funcionários públicos.

É uma suprema ironia que, até há muito pouco tempo, a Holanda fosse – ao lado da Alemanha – o país das maravilhas que cumpria à risca a castidade monetária da Europa do Norte. Por várias vezes Mark Rutte e o seu ministro das Finanças defenderam a expulsão do euro de todos os países incapazes de cumprir os objectivos fixados. O governo holandês advogou publicamente a criação de um euro restrito às economias fortes do Norte – e até já tinha nome para essa nova moeda: neuro.

Hoje, o mesmo Mark Rutte vai reunir o Conselho de Ministros em Haia para apresentar a demissão do seu governo. A ruptura deu-se no sábado, quando o Partido da Liberdade (extrema-direita) rompeu a coligação governamental, recusando-se a dar o aval ao pacote de austeridade que vai permitir à Holanda atingir o défice de 3% previsto no tratado. E assim, inesperadamente, a cabeça de Rutte acabará a seguir o destino dos seus colegas do Sul, cujos governos colapsaram por causa dos pacotes de austeridade.

Foi o líder da extrema-direita, Geert Wilders, que acabou com a harmonia no governo holandês. Wilders rejeitou o programa de austeridade – que implicava cortes de cerca 14 mil milhões de euros no orçamento – justificando não aceitar que os cidadãos holandeses fossem obrigados a pagar dos seus bolsos “as exigências insensatas de Bruxelas”.

“Não queremos seguir as ordens de Bruxelas”, disse Wilders, citado pelo Financial Times. “Não queremos ver os nossos reformados a sangrar em nome dos diktats de Bruxelas”.

Agora, o passo seguinte é a convocação das eleições antecipadas. No sábado, dia do colapso da coligação, Mark Rutte considerou-as inevitáveis. Hoje, depois da reunião do Conselho de Ministros, vai apresentar a demissão à rainha. Tudo indica que se manterá em funções, enquanto primeiro-ministro demissionário, até à realização das eleições – provavelmente em Setembro.

A questão é o cumprimento da meta do défice. Com a extrema-direita fora de jogo, os dois partidos à esquerda do Liberal de Rutte admitem até dar o acordo a um orçamento com alguns cortes. Mas nenhum dos dois partidos de esquerda (um eurocéptico, outro mais europeísta) quer ver o défice atingir os 3% já em 2013. A desaceleração da economia faz prever que em 2013 o défice chegue aos 4,6%. Foi para evitar esta ruptura com as metas de Bruxelas que o primeiro- -ministro apresentou o novo programa de cortes, chumbado pelo seu ex-parceiro de coligação.

Antes do colapso da coligação governamental, a Holanda já tinha sido ameaçada de corte do seu triplo A pela agência de rating Fitch. A ameaça provém do risco do mercado imobiliário holandês, onde o número de casas por vender atinge níveis do Sul da Europa. Desde 2008, o número de casas à venda duplicou na Holanda. O jornal holandês “Volkskrant” diz que “o mercado imobiliário está em coma”, com o número de licenças de construção a atingir o nível mais baixo desde 1953. A recessão na zona euro não melhorou a situação.

A dívida das famílias holandesas aos bancos está entre as mais elevadas da zona do euro: em 2010, o Eurostat apontava uma dívida de 249% do PIB, em comparação com 202% na Irlanda, 149% no Reino Unido, 124% na Espanha, 90% na Alemanha, 78% na França e 66% na Itália. Aparentemente, o primeiro-ministro que hoje vai demitir-se formalmente, foi apanhado de surpresa com a recusa, no sábado, do líder do Partido da Liberdade em apoiar os novos cortes. Chegou a dizer que “já estava tudo fechado” quando Wilders decidiu rasgar tudo e ficar de fora de um orçamento de austeridade, sempre impopular.

Quando o pacto fiscal aprovado recentemente pelo conselho europeu põe em crise um dos países mais “bem-comportados”, pode ser o futuro do pacto a estar em questão. Agora, é um demissionário Rutte que vai tentar convencer a esquerda a consensualizar alguns cortes para apresentar em Bruxelas.

TopoIr para lista

crise_divida_holanda.jpg