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A INESPERADA SURPRESA DE JOÃO PROENÇA
2012-04-20
NEGÓCIOS ONLINE

20 Abril 2012 | 12:35

Baptista Bastos - b.bastos@netcabo.pt

 


João Proença apareceu nas televisões, um pouco espavorido. Demonstrou especial indignação pelo facto de o Governo não estar a cumprir o acordo tripartido. Proença não deveria espantar-se. É um dirigente sindical cheio de experiência e sabe muito bem, por anteriores exemplos, que tanto os Governos como o patronato são relapsos em assumir os seus compromissos. Ameaçou, o atrapalhado Proença, de romper o tratado. Não adianta nem atrasa. O documento já fora rasgado. E Passos Coelho, em Londres, minimizou a angústia do chefe da UGT, afirmando que se tratava de uma birra momentânea, talvez justificada pela aproximação do 1.º de Maio. A humilhação foi completa.
 

Claro que o compromisso assinado na Concertação Social vale o que vale, e, na verdade, vale muito pouco. Os patrões, pelo rosto e pela expressão de António Saraiva, também começam a dar pequenos sinais de preocupação. As coisas não estão a correr como desejavam, e, a tomar em conta o número de desempregados, o encerramento em massa de pequenas e médias empresas, o bloqueio político dos governantes que não sabem o que fazer, as cada dez mais tenebrosas ameaças de hecatombe, o patronato admite estar ante uma visão fantasmagórica do futuro. Sem trabalhadores não há lucro, sem empresas não há troca, sem consumo não há economia.
 

A tão falada "mudança de paradigma" está a arruinar as nações, a destruir o ânimo do ser humano e a preparar a humanidade para um confronto de consequências imprevisíveis. O homem foi transformado em matéria-prima para fabricação do lucro, na continuidade da ideologia do empobrecimento geral para melhor expressão de domínio. Os laços de solidariedade estão a romper-se, e o ataque aos sindicatos e às federações de trabalhadores faz parte dessa estratégia - de que, infelizmente, a UGT é um elo prestável e obediente.
 

As últimas modalidades da "globalização" degradam, acentuadamente, o assalariado, impelido a formas de servidão que julgávamos arredadas para o lixo da História. Quando observamos, levemente que seja, a sociedade portuguesa nos últimos nove meses, deparamos com a prossecução de um projecto político aterrador. Claro que há uma atabalhoada incompetência na gestão da coisa pública; mas, na base, eles sabem muito bem o que estão a fazer. O problema é que não prevêem o resultado imediato, o que torna as evidências muito mais cruéis e desumanas.
 

Se este Governo prosseguir na intenção, que restará da sociedade portuguesa dentro de pouco tempo? A tese, absurda e abstrusa, defendida por Pedro Passos Coelho, de que, quando batermos no fundo (quando batermos?, não batemos já?) reerguer-nos-emos, é negada pelo que historicamente tem sucedido, e de que a Grécia é o último e lamentável exemplo.
 

Entre as fatalidades de que, todos os dias, temos notícia, a entrega de vinte e cinco apartamentos por dia às instituições bancárias denota parte da penitência que estamos a sofrer. A família, na sua tradicional realidade, é destruída com implacável displicência; cinco mil jovens, por indisponibilidade financeira e outras, abandonam os estudos superiores; a classe operária é atingida por abomináveis depredações; e o Presidente da República anda por aí, muito contente, dizendo alguns solenes disparates.
 

Perdeu-se o sentido da responsabilidade individual e do respeito pelo outro, nas suas contingências e necessidades. A ética foi substituída por um amálgama de interesses, que conseguiu destruir os nossos instintos solidários. A Europa perdeu a moral e não a sabe mudar por nenhuma outro coerência espiritual. As pessoas que nos dirigem são extremamente medíocres, sem grandeza nem prospectiva. Até que ponto poderemos aguentar esta avalanche?
 

A poesia de Liberto Cruz
Liberto Cruz, um dos nossos mais esclarecidos intelectuais, que tem dedicado a vida à crítica, à biografia, ao ensaio e à poesia, acaba de publicar "Poesia Reunida - 1956 - 2011", um regalo para quem ama o sentido criador e inovador. Este homem discreto e modesto, estudioso e livre, procede a uma espécie de levantamento ético e estético de uma vida consagrada à liberdade, à humanidade e à procura incansável de uma verdade para o conhecimento e fruição da qual ele não desiste. Liberto Cruz é um escritor comprometido, no sentido mais nobre da expressão, e a simples leitura de qualquer dos seus poemas no-lo demonstra. Foi adido cultural em Paris, desenvolvendo uma actividade extremamente meritória, e ainda hoje está por esclarecer, as razões (diz-se que políticas) por que foi substituído naquelas funções. A reunião dos seus poemas devolve-nos, na sua grandeza, um homem incomum pela verticalidade de espírito, e um poeta pessoalíssimo. A ler ou a revisitar, com atenta curiosidade.

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