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CARLOS MOREIRA DA SILVA: “PLANO DO ANCHORAGE PODE ACABAR COM A LA SEDA MUITO RAPIDAMENTE”
2013-04-13
NEGÓCIOS ONLINE

13 Abril 2013, 16:10
por Isabel Aveiro | ia@negocios.pt

 

Presidente demissionário da La Seda de Barcelona (LSB) suspeita que grupo que detém parte da dívida da catalã tem “agenda escondida” e afirma que gostaria de ver a LSB protegida de um fundo “abutre”.

Um dia antes de ser conhecida publicamente a renúncia de Carlos Moreira da Silva dos cargos de presidente e presidente executivo da La Seda de Barcelona (LSB), o gestor português enviou uma carta ao conselho de administração da petroquímica catalã.
 

A LSB, recorde-se, é detida em 20,25% pela BA PET BV (do mesmo núcleo de três accionistas, entre os quais Moreira da Silva, que é dono da portuguesa BA Vidro) e em 14,77% pelo universo Caixa Geral e Depósitos (directamente e via fundos de investimento). Outros 5,19% do grupo catalão são da espanhola Liquidámbar, sociedade que reúne várias caixas de poupança da região onde a LSB tem sede, e cujo representante no conselho de administração renunciou no passado dia 18 de Fevereiro.
 

Já a Caixa Capital - Sociedade Capital de Risco (do grupo CGD) tinha renunciado ao cargo de membro do conselho de administração a 27 de Janeiro do ano passado.
 

Na carta, a que o Negócios teve acesso, Moreira da Silva acusa o fundo de investimento Anchorage, que nos últimos meses adquiriu cerca de 40% da dívida da LSB, de ter um plano onde a viabilidade da LSB não consta. Carlos Moreira da Silva tenta desmontar a proposta de refinanciamento da Anchorage em três tempos: perda de valor accionista, ausência de viabilidade operacional e falta de transparência sobre os objectivos dos autores do plano.
 

Para o gestor - e presidente da portuguesa BA Vidro - a proposta do Anchorage para a La Seda “não tem um projecto industrial que a suporte e há muitas possibilidades de que a mesma acabe com o grupo [LSB] rapidamente, com prejuízo para os clientes, fornecedores e trabalhadores da LSB”.
 

Na carta, Moreia da Silva é claro na acusação: “suspeito que o Anchorage pode ter uma agenda oculta contra os actuais accionistas da LSB, e também contra outros credores que não estão em condições de injectar novos fundos na companhia”.

Para detentores de capital da LSB, o accionista e até agora CEO da petroquímica, faz o alerta: “a proposta do Anchorage para o refinanciamento não respeita os direitos de subscrição preferenciais dos actuais accionistas da LSB”.
 

A LSB, cotada na bolsa espanhola, caracteriza-se historicamente por ter um grupo muito atomizado de pequenos accionistas, além do núcleo duro formado pela BA PET, CGD e Liquidambar (que total somam cerca de 40% do capital (LSB).
 

Protecção contra fundo “abutre”
 

A justificação para a saída das funções no conselho de administração da LSB, Carlos Moreira da Silva dá-la logo no início da carta enviada para El Prat, em Barcelona.
 

“Tendo tido conhecimento da demissão apresentada pela BA PET BV [como accionista] do seu cargo de membro e presidente do conselho de administração da La Seda de Barcelona, como consequência da aprovação, pelo conselho [de administração] da proposta do Anchorage para o refinanciamento da sua dívida sindicada, venho por este meio confirmar a extinção do contrato de alta direcção de 15 de Outubro de 2010 que me une à companhia”, começa a carta enviada a 11 de Abril. O dia 15 de Outubro de 2010 é data em que Moreira da Silva assumiu a liderança da administração da LSB.
 

"O Anchorage “não tem um projecto industrial que a suporte e há muitas possibilidades de que a mesma acabe com o grupo [LSB] rapidamente, com prejuízo para os clientes, fornecedores e trabalhadores da LSB”."

Carlos Moreira da Silva
 

Na mensagem, o accionista e ex-administrador apresenta a sua visão dos factos, sobretudo relativa aos dos últimos meses, período em que a LSB esteve (e ainda está) mais pressionada pelo fim do prazo para renegociar uma tranche de 230 milhões (de um total de 600 milhões de dívida sindicada) e pela entrada de um novo protagonista, o fundo Anchorage, que passou a deter 40% da dívida da catalã.


Como recordou a “site” noticioso espanhol “Economia Digital” a 21 de Fevereiro último, antes que a administração da LSB tivesse dado conta, o Anchorage ficou com uma parte da dívida, passando a catalã a listar como mais um dos “danos colaterais” da falência da CAM - Caja de Ahorros del Mediterráneo. É a que a CAM, que acabou ser vendida ao Sabadell por um euro no final de Dezembro de 2011, era credora da LSB, tendo 100 milhões de dívida da petroquímica catalã sido comprada inicialmente pela Morgan Stanley (a uma CAM insolvente) e revendida posteriormente ao Anchorage.
 

Na carta, Moreira da Silva defende que após “difíceis negociações em defesa dos interesses da companhia” catalã, a BA PET acordou a 28 de Fevereiro uma proposta de acordo com a LSB e a comité director do sindicato bancário (agora liderado pelo Anchorage em virtude do volume de dívida adquirido pelo fundo). Comité este que, afirma o gestor português na mensagem, “depois de ter sido formado por cinco credores, passou a ser composto somente pelo Anchorage, por demissão dos restantes”.
 

“Finalmente” conclui na carta, “não foi possível alcançar um acordo a 31 de Março, apesar de ceder a muitas das solicitações do Anchorage”, defende, “dado que este credor insistiu em incluir novas cláusulas” nas suas exigências, alega Moreira da Silva. Cláusulas estas que “não estavam incluídas no ‘term sheet’ acordado”, e que o ex-CEO da LSB classifica como “gravemente prejudiciais para o desenvolvimento futuro do negócios do grupo [LSB]” e que “aumentariam significativamente a incerteza de manter o negócio protegido das mãos de um fundo abutre [“buitre” no original espanhol, “vulture fund” na cópia da carta em inglês].
 

“À disposição” até 11 de Julho


Moreira da Silva resigna dando três meses à casa, por assim dizer: “esta carta implica o início de um período de três meses de aviso prévio requerido”, cujo “deadline” é 11 de Julho de 2013.


“A partir deste momento, estou à disposição do conselho de administração para realizar todas as funções que, durante este período de três meses, tenha em consideração confiar-me”.


Na sexta-feira passada, o conselho de administração da LSB emitiu um comunicado a fazer saber da resignação de Moreira da Silva de presidente e CEO da La Seda, adiantando que tais funções seriam asseguradas interinamente pelo actual vice-presidente, José Luís Morlanes.


Injecção de 65 milhões na LSB
 

Carlos Moreira da Silva entrou para a administração da LSB em Junho de 2009, tendo assumido a presidência a 15 de Outubro de 2010. A BA PET BV, empresa-veículo com sede na Holanda criada pelos três accionistas da portuguesa BA Vidro para entrar no capital da LSB, que reforçou a sua posição nos últimos três anos, até aos actuais 20,25% que a ficha da catalã reconhece no “site” do regulador espanhol (CNMV).
 

No percurso desde 2009, a LSB concluiu o projecto químico de PTA em Sines, acordado como PIN de quase 400 milhões de euros ainda sob o Governo de José Sócrates, e hoje maioritariamente detido por entidades portuguesas, entre as quais o fundo ECS. Em paralelo, alienou a unidade de PET em Portalegre, no âmbito de uma reorientação estratégica assumida a partir de 2010, que implicou a alienação de várias unidades da catalã na Europa e consequente redução do quadro laboral da LSB.
 

Um percurso também destacado na mensagem de resignação de Moreira da Silva, que recordou que em 2010 a BA PET injectou na petroquímica catalã “os fundos necessários para salvar o grupo LSB, num montante de 65 milhões de euros”. E que em 2012 foi “um dos poucos accionistas que apoiaram a iniciativa” de aumentar o capital da LSB no valor de 40 milhões de euros - o que acabou por não acontecer - comprometendo-se nessa circunstância a “subscrever uma parte importante do aumento de capital” da La Seda.
 

A carta envida pelo gestor é concluída com um “agradecimento” de Moreira da Silva “a toda a equipa da LSB” pela sua “contribuição com motivação e energia ao projecto de mudança” a que se propôs “liderar”. “E um especial agradecimento ao conselho de administração pelo apoio recebido até o dia de hoje”, finaliza.
 

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