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DEVIAM TER VERGONHA
2013-06-07
ECONÓMICO

03/06/13 00:35 | António Costa


O ministro das Finanças diz-se um defensor das instituições, as políticas e as económicas, mas o que sucedeu na passada sexta-feira com a Caixa Geral de Depósitos (CGD) é absolutamente surreal e deveria deixá-lo coberto de vergonha.

O ministro das Finanças diz-se um defensor das instituições, as políticas e as económicas, mas o que sucedeu na passada sexta-feira com a Caixa Geral de Depósitos (CGD) é absolutamente surreal e deveria deixá-lo coberto de vergonha. Era difícil imaginar um processo conduzido por Vítor Gaspar que pudesse contribuir mais para a descredibilização do banco público e que pusesse em causa o que as Finanças dizem defender, isto é, o papel central da Caixa na economia portuguesa.

Para quem não se apercebeu da gravidade extrema do que se passou até à assembleia geral da CGD, fica um resumo que só pecará por defeito: o Governo estava, há muito, descontente com a forma como a CGD estava a actuar, sucediam-se, pela boca de Pedro Passos Coelho e António Borges em particular, as críticas privadas e algumas públicas, à equipa de gestão e ao modelo de governação. Os casos serviam de exemplo, como o da recusa de um financiamento à Fundação Champalimaud - de que Borges é administrador, diga-se de passagem - e a pressão sobre Vítor Gaspar para mudar a administração, incluindo o presidente executivo, José de Matos, aumentava. Gaspar resiste, faz ouvidos moucos aos pedidos de Passos e segura um nome que foi uma escolha pessoal, directamente do Banco de Portugal. Mas acaba por ceder e abre a porta a mudanças, não todas, algumas. Promete uma solução e outra actuação do banco público. Assume responsabilidades e uma assembleia geral que estava marcada para 9 de Maio é adiada para 31 de Maio. Pelo meio, Álvaro Santos Pereira anuncia uma carta de missão da CGD e mais crédito às pequenas e médias empresas.

O que sucedeu, então? Na quarta-feira, Faria de Oliveira demite-se do cargo de ‘chairman', depois de ser conhecida a demissão formal de Pedro Rebelo de Sousa, e é ‘anunciado' um novo presidente, Álvaro de Nascimento. Rodolfo Lavrador e Norberto Rosa, executivos, são, literalmente, 'postos na rua' pelos jornais e são indicados mais dois nomes, Ana Cristina Leal e Maria João Carioca para a equipa executiva. O país assiste a uma mudança de administração na praça pública, sem uma palavra da tutela, durante uma semana. Mas, sexta-feira de manhã, dia da assembleia geral, Vítor Gaspar ainda faz contactos, para preencher a equipa. Decide, por fim, à última hora, adiar a mudança da administração. Pode ser pior? Pode, e foi. Na ausência de uma nova equipa, Gaspar decide divulgar uma carta de missão que não é só um conjunto de generalidades, é um arrevesado de banalidades que, escrito por um aluno de 1º ano do professor Gaspar teria nota negativa na certa. Uma pobreza de ideias, uns lugares comuns que não dizem nada, ou melhor, dizem tudo sobre o que se passou, sobre a forma como Vítor Gaspar tratou a CGD.

A Caixa continua a ser o ‘playground' dos ministros das Finanças que gostam de brincar aos banqueiros, que sonham ser ‘ricardos salgados', por um dia que seja. Mas já ninguém se espanta. É tudo normal, como é normal que Gaspar autorize que o Banco de Portugal lance uma espécie de oferta pública amigável sobre a CGD, o supervisor e o banco público já se confundem, mais valia aproveitar a reforma do Estado e fazer uma fusão, sempre se poupavam uns milhões.

A conivência de Pedro Passos Coelho - derrotado em toda a linha neste processo - torna-o também responsável por estes lamentáveis episódios que os trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos não mereciam. O primeiro-ministro não tem legitimidade para exigir o que quer que seja da CGD, menos ainda que seja líder do que quer que seja, quando ele próprio permite que Vítor Gaspar paralise o banco público e o mantenha em ‘stand by'.

Quem assume, agora, as responsabilidades pelo que sucedeu, senhor primeiro-ministro? Pela degradação da imagem e da actividade da CGD? Pela fragilização de uma administração que já teria, sem esta ‘ajuda', um trabalho hercúleo? É mais fácil demitir gestores públicos de transporte, responsabilizá-los, mas isso não chega para apagar a irresponsabilidade política de quem conduziu a CGD a este estado comatoso. Deviam ter vergonha.

 

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