Por: Francisco Ferreira da Silva e Rosário Lira
“Gostava que a Caixa não constituísse mais jogo político que, na minha opinião, é deprimente numa altura destas”, afirma o presidente do Banco BIG.
A Caixa Geral de Depósitos “cumpre todos os rácios”, garante Carlos Rodrigues em entrevista ao Económico, Antena 1 e RTP 2. Em todo o caso, afirma “pode ser mais razoável e mais conveniente ter mais 2% de rácio de capital” e remata “não faz mal a ninguém”. Em relação aos últimos quatro anos, o banqueiro refere que tem “um respeito enorme pela liderança de José de Matos” e sublinha que foram anos em que “se promoveu o reconhecimento de todas as perdas que estavam lá”, porque, faz questão de enfatizar, “estavam”.
Faz sentido, para si, a CGD continuar como banco público e ser capitalizada pelo Estado nos valores de que se tem vindo a falar?
Sobre os valores não faço a mínima ideia. Sei que os últimos quatro anos na Caixa foram anos em que – tenho um respeito enorme pela liderança de José de Matos – se promoveu o reconhecimento de todas as perdas que estavam lá, porque estavam. Sei que as contas da CGD são auditadas e sei que são aprovadas pelo Tesouro, que é o accionista principal.
Portanto, surpreendem-me sempre muito estas notícias e gostava que a Caixa não constituísse mais jogo político que, na minha opinião, é deprimente numa altura destas quando o país tem tanto que fazer. Como cidadão, tenho sempre muita dificuldade em assistir a estas lutas partidárias, quando usam instituições e coisas sérias para se atirarem uns aos outros. Como profissional da banca, acho que isso pode estar a acontecer.
A auditoria independente devia ou não ser feita?
A Caixa Geral de Depósitos é auditada por auditores competentes e independentes. Até vai mudar agora de auditor.
“Engano-me muito mais vezes do que aquilo que gostava de admitir. Gosto é de me enganar menos vezes do que aquelas em que acerto”
Os outros bancos também eram e foram resolvidos.
É verdade, mas aí tem os accionistas que também exercem alguma vigilância. Suponho que depois de uma crise e de um período de ajustamento, é normal que muito do crédito malparado não se supusesse que fosse malparado. Todos nos enganamos – engano-me muito mais vezes do que aquilo que gostava de admitir. Gosto é de me enganar menos vezes do que aquelas em que acerto. Na CGD, o que vejo é uma evolução normal. Se defendo uma Caixa pública ou não? Não penso que seja a coisa mais importante haver bancos públicos nas economias. No caso em que já temos um, penso que devemos preservar a instituição que tem milhares de profissionais de primeiríssima qualidade mas que, infelizmente, sendo pública, enferma de um problema, que também acontece noutras áreas, que é mudanças sucessivas de gestão.
Agora até está num limbo.
Agora até tem uma gestão demissionária e outra que demora em tomar posse. A CGD é um banco que – pelo menos nos últimos quatro anos, que é quando lhe tenho dado mais atenção – se tem reformado da mesma forma que o sector privado se tem reformado.
“A CGD tem-se reformado da mesma forma que o sector privado”
Se fosse privada, a CGD já tinha um processo de resolução. Ou não?
Não vejo porquê. Cumpre todos os rácios.
Avaliando pelos casos do Banif e do BES?
Não acho que tenha nada a ver uma coisa com a outra. A minha opinião, como concorrente e parceiro de sector, é que a CGD podia, como qualquer outro banco, ansiar a ter mais um ou dois por cento de rácio de capital, mas não acho que seja comparável a esses casos onde a dimensão do problema era de tal ordem que não tem nada a ver. Agora, pode ser mais razoável e mais conveniente ter mais 2% de rácio de capital. Não faz mal a ninguém.
Carlos Rodrigues
Licenciado em Finanças. Iniciou a carreira profissional na área da banca em Nova Iorque em 1977, no Manufacturers Hanover Trust Company. Estabeleceu e liderou o primeiro banco privado em Portugal depois da liberalização do sector financeiro em 1984, o Manufacturers Hanover que em 1991 passou a Banco Chemical e é hoje o Caixa BI. Em 1988 foi promovido a Senior Vice President do Manufacturers Hanover Trust - Nova Iorque, depois Chemical Bank. Foi presidente da Câmara de Comércio Americana em Portugal durante 15 anos, membro do ‘board of governors’ do St. Julian’s School e membro da Comissão Fullbright em Portugal. Em 1999, fundou o Banco de Investimento Global onde exerce as funções de Chief Executive Officer (CEO). É vogal da administração da Associação Portuguesa de Bancos.

“Na CGD, o que vejo é uma evolução normal”
Fotografia: Cristina Bernardo