Sexta-Feira, 06 de Setembro de 2019

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STEC
 
Plenário presidido pela Administração
> por Freire

O conceito de “Democracia” é um dos que não faz unanimidade: Todos se arvoram em democratas, até Marcelo Caetano, o Chefe do Governo anterior ao 25 de Abril reivindicava tal epíteto… Mas recorrendo ao dicionário de Português de Cândido de Figueiredo consta lá que democracia é “Soberania popular; Governo do povo; influência do povo na governação pública”. Exemplos marcantes que vi de Democracia na minha vida foram vários acontecimentos nos anos posteriores à revolução de Abril, e cito como exemplo a forma como foi tratada a eventual mudança da CGA das instalações da Rua do Ouro, que então ocupava, para um edifício situado na Rua Castilho, creio que no nº 8, para um prédio que foi posteriormente ocupado pelo BPA até final dos anos 80, por serviços da Segurança Social nos anos 90 e que agora se encontra devoluto.
 

As instalações da Rua do Ouro aonde em 1974/75 estavam colocados centenas de trabalhadores da CGA eram francamente más para tal volume de trabalhadores, colocados uns por cima dos outros, em instalações muito frias de Inverno e demasiado quentes no Verão, sem WC’s adequadas a tal volume de utentes, sem arrumos próprios para o volume de arquivos existentes, etc. Como reação a tal, foram feitos vários documentos - moções e abaixo assinados - subscritos pelos seus trabalhadores, que exigiam à Administração a tomada de medidas e que arranjasse outras instalações.

Num dia do inicio do Verão de 1975 a Comissão de Trabalhadores, da qual eu então fazia parte, foi chamada pela Administração. Informaram-nos que tinha surgido uma oportunidade de a Caixa adquirir, ou arrendar, um prédio na rua Castilho, o qual permitiria resolver o problema das más instalações da CGA. A CT convocou uma reunião c/ os representantes dos trabalhadores dos vários serviços daquela Direção para auscultar a sua opinião e a resposta não foi unanime, dividindo-se os presentes entre os que referiam ser a principal urgência deixar-se as más instalações da rua do Ouro aos que, tendo entretanto visitado o prédio da rua Castilho, teciam criticas acesas aos pequenos elevadores que demorariam demasiado a transportar as centenas de trabalhadores em horas de ponta, à estreita escada de serviço, que poderia impossibilitar a fuga de todos em caso de incêndio ou de tremor de terra, às deficiências visíveis na cave aonde havia água à vista, etc
 

Havendo necessidade de dar uma resposta célere ao proprietário do prédio, a Administração tomou então uma original decisão: - Convocar, ela própria, um Plenário dos trabalhadores da CGA, para discutir o assunto e tomar uma decisão final. O Plenário realizou-se pelas 13 horas, num dos andares da rua do Ouro, estando presentes praticamente todos os trabalhadores daquelas Direção que não estavam de férias (estávamos já no Verão). A mesa que dirigiu o Plenário foi constituída pelo Administrador Geral, Dr. Campelo, e pelo Vice, Dr. Júlio Rodrigues. Havendo alguma restrição temporal, dado os serviços terem de reabrir em breve, o Dr. Campelo situou a problemática e referiu que quem quisesse podia intervir ou apresentar propostas sobre o assunto. Foram feitas várias emotivas intervenções, de que recordo em especial uma feita pelo colega Ramos, sobre as suas vivências nas instalações da rua do Ouro, e outra do Dr. Júlio Rodrigues, que, sentindo-se “picado” pelo conteúdo de algumas intervenções, expôs a sua vida de trabalho dedicada à Caixa, em que subiu a pulso desde a admissão, aos 14 anos, como paquete, até Vice – Presidente da Instituição.

Foram apresentadas 3 propostas, uma defendendo a mudança das instalações da CGA para a rua Castilho, outra propondo a manutenção dos serviços na Baixa de Lisboa e outra condicionando a aceitação das novas instalações à fixação de compensações monetárias para os trabalhadores da Direção, os quais, com a mudança, passariam a ter, na sua maioria, despesas acrescidas de transporte e de alimentação. Postas as propostas à votação, poucos trabalhadores votaram pela aceitação incondicional da mudança, dividindo-se a maioria entre a recusa total ou a sua aceitação condicionada a um acréscimo salarial.
 

Perante estas posições do Plenário, a Administração adiou a decisão e não outorgou o contrato com o proprietário do prédio. O problema das más instalações em que se encontravam os trabalhadores da CGA arrastar-se-ia durante mais alguns anos, acabando, nos anos 80, os serviços por mudarem, curiosamente também para a rua Castilho, mas para um outro e moderno prédio, no nº 233, ao cimo da rua, decisão tomada pela Administração da altura, então sem audição prévia dos trabalhadores e sem qualquer compensação monetária para os seu gastos acrescidos…

Freire 

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