Nos primeiros tempos do pós-25 de Abril, a eleita Comissão Executiva dos Trabalhadores da CGD (CET) - era assim que se designava antes da publicação da lei que viria regulamentar as Comissões de Trabalhadores - era constantemente solicitada para reunir com os trabalhadores nos mais variados pontos do país. Uma dessas solicitações veio dos trabalhadores na cidade do Porto, sendo um dos pontos propostos para discussão a prepotência do chefe dos Tesoureiros, razão suficiente para tal solicitação ser prontamente atendida pela CET.
Quando se fala da prepotência exercida por algumas chefias em empresas privadas e instituições estatais todos os que viveram aqueles tempos sabem o que pretendemos referir, não havendo necessidade de entrar em grandes pormenores, mas vale a pena referir que um dos «prazeres» daquele chefe dos Tesoureiros na Filial do Porto era, na véspera ou nuns dias antes do início de férias de um Tesoureiro, ele se lhe dirigir a um destes informando-o de que teria de alterar o período de férias dado que seria indispensável ao serviço nas datas previamente acordadas para o gozo de férias. Os transtornos causados ao trabalhador e à sua família eram inumeráveis, mas o chefe gostava de mostrar também assim a sua «autoridade».
Fui um dos destacados da CET para ir ao Porto. Comigo foi também o Jorge Matias e, se a memória não me falha, o Serra de Oliveira e o Correia. O José Vitória Fernandes cedeu-nos o carro e o Jorge Matias ofereceu-se para conduzir, ficando o regresso à noite por minha conta, como era habitual.
Partimos com tempo suficiente para cumprir os horários estabelecidos; no entanto, o trânsito para o Porto nesse dia foi infernal, com muitos camiões a impedir-nos de andar à velocidade necessária para chegar a horas pois, não esqueçamos, tínhamos auto-estrada até Aveiras, julgo, e depois só a ela teríamos acesso de novo perto já da cidade do Porto.
O relógio não parava e o trânsito aumentava.
Perante os comentários que uns e outros iam fazendo quanto à demora não programada, o Jorge Matias informou-nos de forma categórica: «Não se preocupem, garanto que chegaremos a horas!»
Eu ia «no lugar do morto» e nunca fiz uma viagem em que tanto tivesse temido pela vida. O Jorge, quando apanhava a estrada um pouco mais larga, apontava o carro ao meio das duas filas que corriam em sentido contrário uma à outra, e acelerava, levando os carros de uma e outra fila a desviarem-se um pouco para a direita de modo a que o Jorge, como um senhor que não poderia ser contrariado, passasse pelo meio. Chegámos a horas, o Jorge Matias tinha cumprido a promessa que nos havia feito!
Fomos de imediato para o local da reunião, onde um enorme número de trabalhadores já se encontrava, cumpridores de horários como nós mas, naturalmente, sem os sobressaltos que os membros da CET tinham vivido.
Iniciada a reunião, nervosíssimo ainda pelos factos relatados, tomei a palavra, como estava acordado entre nós, desancando no chefe prepotente de forma brutal. Em determinado momento, vi um dos presentes a tentar interromper-me, o que não permiti, informando-o de que poderia falar quando eu terminasse.
Continuei o discurso agressivo e verifiquei que a pessoa que tinha tentado interromper-me se encaminhou para a saída, desaparecendo da reunião.
No final, fui abraçado por muitos dos Tesoureiros, que me informaram que o prepotente chefe era o que tinha tentado interromper-me. Mais importante que tudo foi vir a verificar-se que as prepotências daquele «funcionário» da CGD, mesmo continuadas depois do 25 de Abril, terminaram de vez após aquela reunião. A CET tinha cumprido com êxito mais uma das suas missões!
O que não futurámos naqueles momentos foi que, hoje, quase a cumprirem-se os 40 anos da Revolução de Abril, tivéssemos um governo que tudo tem feito para que tais prepotências passem a ser o dia a dia dos trabalhadores portugueses. Mas somos um dos países, tendo em conta a área do território, com uma das maiores redes de auto-estradas… quase sem trânsito!
António Gomes Marques